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A vida é o que você faz

Seres estranhos? 
Ahhh... está falando com a pessoa que tem paixonite aguda por estes.  Talvez porque criaturas estranhas (inanimadas ou não) me cativam com a sinceridade de seus "defeitos", fogem do padrão comum de tão idiossincráticas. Todos seus comportamentos possíveis mais próximos do humano aumentam a beleza de sua "tosquice estética", refletem a nossa verdadeira essência humana sem maquiagem social. 

The Maker é um belo curta metragem de stop motion dirigido por Crhistopher Kezelos (senhor dos bonequinhos de linha, pano, pedrinhas... ). Não é o meu curta preferido mas, além de ser um bonequinho medonhamente lindo , é sonoro, poético e filosófico: A efemeridade do tempo está diretamente ligada à preciosidade da vida efêmera. Um ser meio estranho que corre contra o tempo para fazer a criação mais bonita e importante de sua vida. Nesse ensaio de gerar vida com sua vida, o que há de mais bonito é a busca ansiosa e o momento em que ele esquece por uns segundos do "fim" e age com a intensidade e sinceridade de seu coração no "meio". E é o que realmente faz valer, a intensidade do caminho percorrido, não o seu resultado final. É isso que eterniza o tempo e a vida, numa cadeia de vários "fins".




107 passos

WTF?!


Um soco no estômago, um tapa na cara, ou qualquer adjetivo que descreva o quão mal pode deixar uma pessoa drama musical do polêmico Lars Von Terrier coroa dinamarquês que, de tão grande drama em cima de questões do existir em muitos de seus filmes, chega a ser sarcástico por nos fazer pensar SEMPRE de forma profunda e enlouquecedora quando acaba a sessão, codificando em suas entrelinhas algo do tipo: "se mate", lançado em 2000, Dancer in the Dark conta a história de uma mãe solteira portadora de uma doença hereditária na visão que tenta impedir que seu filho fique cego como ela está ficando. Tendo isso em vista, como cerne de sua felicidade e resolução da sua decisão de tê-lo mesmo sabendo que ele teria a mesma doença, ela trabalha o máximo que pode para economizar e pagar sua operação. Só que quando um vizinho amigo passa por problemas financeiros e a rouba, têm-se início uma série de trágicos acontecimentos que mudarão para sempre os rumos de sua vida. Daí, conhecendo Terrier, você já tira a duração do filme e o desenrolar com “n” pontos e conflitos psicológicos. Este é mais um de seus filmes com estilo cinematográfico de câmera de mão (amo!) que intriga a quem vê e traz à tona questões existenciais despontando os dois lados da moeda de um só homem e das várias facetas da vida. E seus finais, é claro, de impacto. Neste, 107 passos para tirar o ar.

Fiquei remexida. O longa me deixou cabisbaixa, abatida, mofina, emputecida. Refletindo, não sai da cabeça o quanto o ser humano é medíocre, banal e extremamente superestimado (coisas que a maioria de nós sabemos, até, mas tapamos os olhos – metáfora da cegueira no filme - para não enlouquecer e ver além do que já se viu,  porque não faz diferença enxergar mais). E aí vem Terrier, como de costume, te trazer de volta ao paredão das questões reais da vida e falar: não há como fugir.

Bjork eu te amo , além de cantar, compôs as músicas, e sua atuação antológica me arrebatou. Ver sua personagem sorrindo nos momentos mais tensos e melancólicos, junto à sua amargura angustiante, quando não tinha mais forças para sorrir, fizeram meus olhos ameaçarem lágrimas mas não me intimidei, mantive-me forte, até a última cena e...é, despenquei enxurrada. A personagem com seu jeito simples, de se alegrar com tudo, mesmo passando por situações horríveis, sua busca por sons que motivassem seu existir, se libertando em um mundo paralelo (a perfeição do real para si, mas não de modo inatingível) de realização com dança e música, fazendo que as coisas boas triunfassem... foi magnífico e transformador!





 "Dizem que é a última canção,
 Eles não nos conhecem; você vê.
 É apenas a última canção
 Se deixarmos que seja."




A Ira de um Anjo

 Talvez você já esteja acostumado a ver casos de abuso infantil, pela TV ou ouvir da boca do povo, ou ainda, vivenciado ou tido alguém próximo que passou por isso. Mas, ouvir relato do caso pelo abusado com tamanha sinceridade é raro. Os abusados tendem a se fechar ao trauma, principalmente por serem pressionados à omissão (seja pelo abusador ou pela sua consciência traumática). Essa triste realidade contribui para distúrbio comportamental e psicológico, interferindo em sua relação com o meio e suas relações interpessoais. Realidade essa que pode estar mais próxima do que imaginamos.

 A Ira de um Anjo (Child of Rage) é uma compilação das fitas de terapia do Dr. Ken Magid, um psicólogo clínico especializado em tratar de crianças que foram severamente abusadas, que não se ligam afetivamente à outras pessoas, que não podem amar ou aceitar o amor, que não têm consciência dos seus limites, podendo ferir ou matar sem remorso algum. 
Quando descobri esse documentário, confesso que ele me chocou profundamente, pois não tinha tamanha noção dos efeitos devastadores de abuso em uma criança, coisas que a TV não mostra, e que os poucos programas de política pública, por não possuir investimento o suficiente, não tem domínio absoluto para agir na população, tratar e conscientizar da fatídica realidade. Sim, as vítimas podem ser ajudadas, e os que estão à sua volta trazem um papel fundamental. 

 Essa é a estória de uma menina de 6 anos e meio, chamada Beth:





Toda cura para todo mal, está no Hipoglós, no Merthiolate, Sonrisal ♪

O tempo não cura.  Ao invés de ser o “remédio milagroso” de resultado exato, é um placebo. Sua eficácia está diretamente ligada à fé do doente sobre seu resultado de cura.  Nele, há um processo de sequência pós-perda: protesto (ira, não aceitação, reação impulsiva externa e interna), desespero (um período de dor, anelada à cegueira circunstancial), desapego (tornar-se desapegado, impressão de já não se importar com a ausência da figura à qual estava ligado)- O filme UP retrata bem um exemplo de perda e esse processo pós, nitidamente.  Impressão essa que, mesmo já distante da dor, sempre será acompanhada da falta e da saudade. Sendo assim, a afirmação de que “o tempo cura” é uma falsa sensação que a mudança de costumes trará ao longo do tempo ao passivo de perda. Por quê?  As lembranças nunca serão exterminadas, elas tratarão de fazer seu papel “troll” trazendo à tona um histórico significativo, pois tudo o que foi vivido com algum sentimento extremo será marcado na memória. A única coisa que vai mudar é a forma de viver com o que não se tem mais, a sua ressignificação como anestesia.