"Clariceando"



"Não deveria ter visto. Porque, vendo ela, por um instante arriscava-se a tornar-se individual, e também eles. Era do que parecia ter sido avisada: enquanto executasse um mundo clássico, enquanto fosse impessoal, seria filha dos deuses, e assistida pelo que tem que ser feito. Mas, tendo visto que os olhos, ao verem, diminuem, arriscara-se a ser uma ela-mesma que a tradição não amparava. Por um instante hesitou toda, perdida sem rumo. Mas era tarde demais para recuar. Só não seria tarde demais se corresse. Mas correr seria como errar todos os passos, e perder o ritmo que ainda a sustentava, o ritmo que era o seu único talismã, o que lhe fôra entregue à orla do mundo onde era para ser sozinha - à orla do mundo onde se tinham apagado todas as lembranças, e como incompreensível lembrete restara o cego talismã, ritmo que era de seu destino copiar, executando-o para a consumação do mundo. Não a própria. Se ela corresse, a ordem se alteraria. E nunca seria perdoado o pior: a pressa. E mesmo quando se fogem, correm atrás, são coisas que se sabem.
Rígida, catequista, sem alterar por um segundo a lentidão com que avançava, ela avançava. "Eles vão olhar pra mim, eu sei!" Mas tentava, por instinto de uma vida anterior, não lhes transmitir susto. Advinhava o que o medo desencadeia.Ia ser rápido, sem dor. " [ Lispector, Clarice. Laços de Família. Ed Paulo de Azevedo, 1960. São Paulo. p. 105,106 ]

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